Por que o Uber incomoda tanto?

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“Seu Motorista Particular” é o slogan da empresa criada em 2009 nos EUA. – Foto: Reprodução

Começo e provavelmente vou terminar este texto sem entender o que se passa na cabeça das pessoas. O aplicativo Uber, serviço de transporte bem parecido com o táxi tradicional, tem gerado muitos comentários desde que chegou ao Brasil, em maio do ano passado. A primeira cidade foi o Rio de Janeiro, seguida por São Paulo, em junho, Belo Horizonte, em setembro, e por último Brasília, no final de 2014.

A guerra Uber x Táxis

Dá pra imaginar que, como toda novidade, o Uber seria bem recebida por uns e muito criticado por outros. Também foi assim nos Estados Unidos, onde foi criado, em 2009, e começou a operar, deixando a dúvida sobre a legalidade do transporte de passageiros em carros de luxo por um preço mais acessível. Multas e proibições ao aplicativo foram aplicadas em diversas ocasiões, nos mais variados países onde a plataforma passou a funcionar. Hoje já são mais de 300 cidades em 58 países. E é claro que essa intolerância não seria diferente no Brasil.

Quem é ligado nas novidades de tecnologia começou a usar o Uber logo no início. Confesso que fui saber do aplicativo um tempinho depois e não dei muito crédito pra ele. Fui prestar atenção no que seria essa “revolução no transporte” quando os primeiros ataques em São Paulo viraram notícia. Taxistas começaram a protestar contra o serviço e pedir a sua proibição. Até aí tudo bem. Eles se sentiram ameaçados, já que o Uber aparenta ser melhor e mais barato. Quem, em sã consciência, vai preferir um serviço pior e mais caro?

Mas as notícias eram assustadoras. Os taxistas passaram a agredir as pessoas que entravam nos carros, furaram pneus, atacaram os motoristas, afirmando que utilizar este meio de transporte é ilegal e clandestino, pois, como não é tratado como transporte de passageiros, os carros e seus condutores não pagam impostos nem contam com placa vermelha e toda a documentação exigida por cada prefeitura.

O que eu não consigo entender é: O taxista se sente ofendido com a “concorrência desleal” do aplicativo, vai lá e protesta, agride e atrapalha o serviço dos outros – sem falar que enquanto ele está protestando ele não está atendendo ninguém – e quer vir falar sobre legalidade? Tudo bem que nada nesse país vai pra frente se não tiver muita reclamação. Mas se o serviço for realmente ilegal, ele será analisado e proibido da maneira certa. O que os taxistas estão fazendo é pior.

Belo Horizonte também teve seu caso de agressão registrado nesse fim de semana. Agressões físicas e verbais. No ponto de vista dos taxistas, preferir o Uber é crime. Só pode ser esse o pensamento antiquado destes agressores.

O cidadão é livre para escolher o seu meio de transporte, seja ele mais prático, rápido ou econômico. Se o táxi tradicional fosse tão eficiente e agradasse a todos, não teriam nem inventado algo melhor. Claro que existem bons táxis e bons taxistas, mas a maioria dos que rodam por ai andam com a cara fechada, tratam o passageiro com pouca gentileza e educação, nem sempre aceitam cartão, e se você paga com uma nota alta, ainda te olham torto por causa do troco. E não me venham dizer que pedir por educação é frescura, porque ninguém gosta de ser maltratado.

No mundo de hoje, com tanto desemprego e crise para todo lado, todos os serviços – seja de transporte, alimentação, telefonia, educação, atendimento, limpeza, banco ou qualquer outra coisa – tem que vir com o melhor custo benefício, além de uma pitada de satisfação e diferencial. Se todos fizerem o mesmo, o primeiro que fizer um pouquinho melhor leva vantagem.

Os vários aplicativos como Easy Taxi, 99 Taxis e WayTaxi aqueceram o mercado nos últimos dois anos, com a praticidade de localizar um táxi e ainda oferecer desconto e a opção de pagar com cartão de crédito ou débito. Isso sempre me incentivou, pela preguiça de ligar para uma central e esperar muito (muito mesmo) para ter um carro em minha porta.

BH não é tão grande quanto o Rio ou São Paulo, e tem uma tarifa de táxi relativamente em conta. Não é tão barato, mas também não é nada impossível de pagar. Se você não tem um carro e o transporte por ônibus ou metrô não vai te atender naquele momento – no caso de pressa ou se precisa carregar algo muito grande ou pesado – o táxi é a solução.

Após tantos protestos, a Câmara de Vereadores de São Paulo proibiu o funcionamento do aplicativo, que teve liminar permitindo, novas proibições e um vai-e-vem com a Justiça. Enquanto isso, painéis de trânsito em BH estão incentivando e sugerindo para aqueles que forem beber que “usem Táxi ou Uber”.

Estratégia

O serviço, que já teve valor de mercado estimado em mais de 40 bilhões de dólares, não está sentado esperando o sucesso chegar. A empresa aposta em ações ousadas para divulgar seu nome, seja dando descontos ou até mesmo criando o #UberIceCream, dia em que distribuem três picolés para os usuários que solicitassem em uma aba específica no aplicativo durante um dia do mês de julho. Claro que isso sai daquilo que os taxistas podem fazer, chegando a ser agressivos, mas deixam uma boa impressão e espalham o nome pelas redes sociais e pelo boca-a-boca de muita gente.

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Tela de uso do aplicativo. Os “Black Car” tem tarifa base variável informada previamente, além de possibilidade de simular tarifa. – Foto: Reprodução

Uber na prática

Só escrevi todo este texto depois que tive a minha primeira experiência com o Uber na semana passada, em Belo Horizonte. Moro na capital mineira há três anos e uso o serviço de táxis com uma certa frequência, sendo assim, posso dar minha opinião de usuário comum, que já pegou táxis durante o dia, noite, sozinho, acompanhado, para distâncias curtas ou longas, em horário de pico ou não. Já vi bastante coisa. Desde taxistas educados e competentes, até outros que não faziam ideia de onde estavam indo e o que estavam fazendo ali.

Tem aqueles que parecem andar a 30km/h, mesmo sabendo que você está com pressa; aqueles que sabem o caminho mas passam por uma rua que vai dar num caminho longo só para ganhar um pouco mais, e até mesmo aqueles que arredondam o valor um pouquinho pra cima sem peso na consciência. É aí que o Uber ganha. Na qualidade do início ao fim. Posso estar errado, já que usei o serviço apenas uma vez. Mas todos os comentários que tive acesso são tão positivos quanto os que posso fazer aqui.

Solicitei um carro na madrugada de sábado passado para voltar para casa e, após alguns minutos de espera, vejo um carro passar e parar do outro lado. O motorista seguiu a ordem do aplicativo e parou no ponto exato. Vi que era o carro que eu tinha solicitado e atravessei a rua para chegar até ele. Antes que eu pudesse falar qualquer coisa, um jovem vestindo um paletó preto, desce do carro e abre a porta para mim e meu amigo, já pedindo desculpas por ter errado o ponto de partida, ainda que ele estivesse certo, pois eu não notei que o mapa indicava a outra esquina.

A boa impressão já começa ai. Que dia que eu pensei em ser atendido por um jovem bem vestido, andando em um Tucson, abrindo a porta para mim e pedindo desculpas por ter passado alguns metros? Assim que entro no carro, todo fechado e com ar-condicionado, ele pergunta se a temperatura está agradável, fala seu nome e pergunta onde quero ir. Informa que está usando o Waze, mas já avisa que posso escolher o melhor caminho, sem nenhum problema. Oferece água e pergunta se prefiro ligar o som com alguma música específica ou mantê-lo desligado.

Depois disso, o jovem se concentra e não fala mais nada, exceto quando perguntado. Nos próximos dez a quinze minutos, fui levado até minha casa com o conforto que um carro daqueles pode oferecer, pagando uma tarifa bastante agradável. O aplicativo requer um cadastro prévio, onde os dados pessoais e de cartão de crédito são informados. Ao final da corrida, o motorista aperta um OK na tela do celular e eu recebo automaticamente o descritivo da corrida, com duração, distância e cobrança, com destaque para o arredondamento para baixo. Paguei R$ 23 em uma corrida que não ficaria por menos de R$ 30.

Conclusão

Se é que posso dizer que termino o texto melhor do que comecei, pelo menos pude refletir sobre como as pessoas reclamam mais do que partem para o serviço. Quem diria quem, em menos de um ano, um aplicativo seria tão conhecido, se não fosse a sua qualidade somada com milhares de taxistas revoltados dizendo que estão sendo prejudicados? A própria curiosidade leva a pessoa a baixar o aplicativo e testar, como fiz, para comprovar se é realmente bom ou só propaganda.

Se querem ganhar da concorrência, prestem um serviço com o mínimo de qualidade. Até porque, tem demanda para todo mundo. Quem só anda com dinheiro ou está com pressa vai continuar usando o táxi que passa na sua frente. Quem já está acostumado com o motorista de confiança ou aquele mais próximo, vai continuar assim. Mas não me venham impedir de usar uma opção mais econômica, se esta for a minha vontade.

O Uber só incomoda porque mostra que nem tudo é perfeito, e que existem alternativas àquilo que é considerado tradicional. Enquanto todas as categorias, de todos os tipos de serviço, acharem que estão consolidadas, haverá pouca evolução. Se for para causar e promover o debate sobre o custo e a qualidade do transporte, desejo vida longa ao Uber.


André Correia é co-fundador do Lavanderia, está a frente deste blog e escreve algumas das matérias e notícias apresentadas aqui. Paralelamente, se arrisca comentando os assuntos que gosta, como música, televisão e fotografia, além de crônicas sobre o cotidiano da profissão.