O Sabor da Noite de Domingo

Sabor da Noite de DomingoJá era tarde da noite de domingo e o vento estava frio. Maria encontrou com seu noivo João. Os dois não se viam há dias e, além da saudade, os dois tinham muito que conversar. Como todas as noites de domingo, o casal foi na mesma lanchonete para pedir o mesmo sanduíche. O pedido foi feito e os dois saíram para fumar um cigarro na calçada enquanto os sanduíches ficavam prontos. Na porta da lanchonete, o casal foi abordado por um morador de rua. Maria se assustou. O rapaz, que aparentava ter uns 30 anos, disse que era escritor e pediu para ler um poema. Maria e João estavam ansiosos para conversar, contar as novidades e matar a saudade. Automaticamente, os dois responderam ao rapaz que naquele momento eles não queriam ouvir, pois precisavam conversar. Foram para um canto e o papo começou.

Durante a conversa, Maria prestava atenção em João, porém ficou observando o escritor o tempo todo. Ele estava de bermuda, com as pernas ressecadas. Um chinelo de borracha que mal cabia em seus pés. As unhas dos pés e das mãos estavam grandes e muito encardidas. Ele tinha um caderno e uma caneta Bic com uma pena de galinha pregada na tampa. Com o caderno apoiado na mesa da lanchonete, o escritor não parava de escrever. Maria ficou imaginando como deveria ser a vida daquele rapaz, onde ele tomava banho, o que será que ele já fez antes de morar nas ruas de Belo Horizonte e ficou curiosa sobre o texto do escritor. Além da curiosidade, ela logo pensou: “o que custa dar atenção ao rapaz, deixar que ele mostre sua obra”? A consciência pesou…

Assim que a conversa com João terminou, Maria decidiu falar com o escritor e ouvir os seus escritos. Lucas Rodrigues Ribeiro era o nome dele. Ao saber do interesse do casal, o escritor abriu um sorriso no rosto e lhes mostrou uma pasta cheia de poesias. Começou a ler uma por uma. E para a surpresa de Maria, o rapaz falava e escrevia muito bem, era inteligente e esclarecido. Após ler seus textos, Lucas pediu para que eles escolhessem um, o qual eles poderiam levar para casa. Maria e João escolheram uma poesia e deram um trocado para Lucas.

Após retornarem para o interior da lanchonete, Maria ficou pensativa, matutando sobre o dom daquele rapaz. Por que será ele morava na rua? Onde ele aprendeu tudo que sabia? A vontade dela era de saber tudo sobre a vida dele e entender o que não tem explicação. Agradeceu a Deus pela oportunidade que ela teve em dar atenção ao rapaz, a qual foi mais importante para ela do que para o próprio escritor. E mais uma vez ela enxergou que precisamos dar atenção ao próximo. Precisamos ver ao nosso redor. E após comer o mesmo sanduíche, na mesma lanchonete, Maria percebeu que, naquela noite de domingo, o que mais deu sabor à sua noite foi o poema do morador de rua – escritor – Lucas Rodrigues Ribeiro.


Mariana Elisa é formada em Letras, está concluindo o curso de Jornalismo e publica no Lavanderia algumas de suas crônicas e outros textos.