Unbreakable Kimmy Schmidt: Uma comédia sem exageros que há muito tempo não se via

Foto: Divulgação/Netflix

Foto: Divulgação/Netflix

É raro encontrar nos dias de hoje uma série de comédia que fuja das velhas fórmulas e modelos que já foram usados inúmeras vezes pelos principais canais norte-americanos. Enquanto na TV a cabo, a HBO, por exemplo, se sobressai com as dramédias – gênero que mistura drama e comédia – Girls e Looking, os canais abertos norte-americanos se veem fadados a repetir, cada vez mais, aquilo que é feito por pelo menos dez anos. Porém, ao contrário do que se esperava, nem sempre (quase nunca, para ser sincero) as coisas dão certo.

Pode-se contar nos dedos quantas séries realmente vingaram após o que eu chamo de “era do ouro das sitcoms”. Nos anos 90, algumas das mais célebres produções do gênero estrearam na televisão norte-americana e fizeram história. Friends, Seinfeld e Will & Grace são os exemplos mais evidentes e acumularam, no período em que estiveram no ar, prêmios, recordes e fãs no mundo todo. Curiosamente falando, estas três séries foram exibidas pelo mesmo canal: a NBC, que desde o fim de Will & Grace, em 2006, não conseguiu emplacar uma boa comédia.

Como disse antes, atualmente são poucas as sitcoms que conseguiram seu sucesso. As “recém” finalizadas Two and a Half Men e How I Met Your Mother, talvez tenham sido um dos últimos suspiros do gênero, mesmo que tenham apresentado visíveis declínios na qualidade em seus momentos finais. Ainda no ar, 2 Broke Girls, Modern Family e The Big Bang Theory tentam fazer jus ao gênero – e podemos citar também Mom, mas apesar de estar na segunda temporada, ainda não conseguiu mostrar muito bem a que veio.

A partir destas séries, é notável ver o quanto existe – e é forte – um modelo de comédia na TV norte-americana. Produções que muitas vezes subestimam a inteligência do telespectador e acabam apresentando exageros que poderiam ser evitados. Não que isso tire os méritos de muitas delas, que são ótimas pelo que propõem, mas isso tudo mostra que há uma deficiência quanto às programações da TV. Falta hoje uma comédia que mostre inteligência e que fuja destes preceitos exigidos pelos grandes canais.

É no meio desta crise que segue Unbreakable Kimmy Schmidt, a nova série da Netflix, que ganha pontos por fugir dos exageros da TV. Criada por Tina Fey (30 Rock) e Robert Carlock (Friends), a produção gira em torno de Kimmy Schmidt (Ellie Kemper), resgatada de um bunker, onde viveu por 15 anos com outras três mulheres, após ser sequestrada por um fundamentalista religioso fanático.

Foto: Divulgação/Netflix

Foto: Divulgação/Netflix

Livre do culto apocalíptico em que viveu por tanto tempo, Kimmy decide recomeçar sua vida em Nova York, onde encontra desafios e tenta, a todo custo, adaptar-se à nova realidade. Um dos grandes acertos é justamente a escolha da protagonista. Conhecida por seu trabalho em The Office, Ellie consegue transmitir à personagem uma ingenuidade e determinação bastante consistente. Além de um timing cômico que funciona perfeitamente, tanto nas piadas mais “inteligentes”, quanto nos clichês básicos que a série apresenta – mas que não atrapalha.

Ao longo dos 13 episódios que compõem a primeira temporada – e a segunda já está garantida para o ano que vem – é possível notar os inúmeros caminhos que o roteiro de Tina Fey poderia seguir, dado que a trama possibilitaria uma história apoiada muito mais no “popular” do que é visto. Afinal, a protagonista esteve presa por 15 anos e perdeu muita coisa nesse tempo.

Além disso, o elenco secundário se mostra tão competente quanto se esperava, a começar por Jane Krakowski, que apesar de ainda ter traços de sua personagem em 30 Rock, consegue se sobressair em vários momentos. Jacqueline Voorhees, a personagem da atriz, é uma socialite da elite nova-iorquina completamente oposta à Kimmy. Insegura e com medo de encarar o “mundo real”, após se divorciar do marido, Jacqueline se contrapõem à protagonista em vários momentos e cria entre as duas uma química inegável.

Quem também se destaca é Titus Andromedon, interpretado por Tituss Burgess. O personagem é um ator aspirante à Broadway, com quem Kimmy divide um apartamento. Assim como acontece com Jacqueline, Titus também se mostra o oposto à colega de quarto. Enquanto ela é ingênua e conhece pouco do mundo, o “novo amigo” mostra uma malicia e esperteza em várias situações, criando uma dinâmica única e as melhores cenas em praticamente todos os episódios.

Foto: Divulgação/Netflix

Foto: Divulgação/Netflix

Em linhas gerais, o que se pode concluir com esta primeira leva de episódios é que Unbreakable Kimmy Schmidt apresenta aquilo que não se via há algum tempo entre as comédias de TV. Talvez o fato de ter sido lançado em um serviço de streaming, no Netflix, mude o funcionamento disso tudo e crie uma liberdade maior para a produção, mas é inegável que o maior acerto aqui é exatamente a fuga de um modelo já conhecido e exaustivamente utilizado. Afinal, se você tem tanta liberdade assim, poderia usar e abusar de algumas situações para criar uma série extremamente popular – e tosca. Mas o resultado está longe de ser isso.


Gabriel Lomasso é aspirante a jornalista e apaixonado por cinema e TV, vai comentar sobre entretenimento e escreve também no PopXpresso.